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Silêncio Eterno | Conto

Ficção | Leonardo Cássio 07/04/18 - 10h Leonardo Cassio

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Há muitas teorias, opiniões e palpites, mas o fato, leitor(a), é que nem eu e nem ninguém que não tenha passado por um trauma pode dizer como as memórias são capazes de nos fazer sofrer ao extremo. Estudos indicam que memórias podem ser reprimidas, suprimidas, recuperadas e até mesmo implantadas. O que eles não têm condição de apontar é o modo exato como elas afetam uma pessoa traumatizada. Tanto se sabe sobre o ser humano e continuamos a ser uma incógnita. Veja este caso:

Renato era um tanto temperamental, apesar da costumeira cordialidade. Perdia a paciência com certa facilidade, principalmente em finais de festas, quando batia a loucura para ir embora:

– Vamos, que eu não tenho mais disposição para enrolação!

A casa de shows onde estavam margeava uma represa imensa, um quê do interior no caos urbano. Noite quente, com uma imensa lua de poesia cintilando, despejando seu reflexo pelo longo espelho d’água. O estacionamento ficava em uma das laterais do estabelecimento e era preciso percorrer uma estrada sem asfalto até alcançar a avenida principal, que tinha diversas vicinais que conduziam a bairros tantos.

Conversavam assuntos sobre os quais nunca mais falariam, apenas deixando o tempo passar até alcançarem o destino final. Ao entrar em um vicinal, Renato viu dois cachorros deitados no meio da estrada e mostrou para Ana, que sugeriu que ele descesse do carro para conferir o estado dos bichos.

Abriu os olhos completamente desorientado. Sentiu uma dor aguda brotando perto da nuca. Olhou em volta e viu Ana amarrada e amordaçada, encostada a uma árvore. Entendeu logo o que se passava. Estava deitado de peito no chão, algemado com algo que causava uma forte dor nos pulsos. Mexeu a cabeça e pode ver os dois homens terminando de roubar os pertences no carro.

Um deles aproximou-se de Ana, a puxou e começou tentar tirar sua roupa. Renato se contorceu, gritou e pediu que a deixassem em paz. Ao que ouviu como resposta:

– Deixamos ela em paz, desde que seja com você. Escolha.

Novamente aquela sensação ruim de desorientação. As vistas estavam um tanto embaçadas, mas pode ver Ana conversando com um homem uniformizado. Em seu braço duas agulhas empurravam alguma medicação e seu corpo não respondia às tentativas de se levantar. Durante os 3 dias em que ficou hospitalizado, Renato pouco falou com Ana. Ela atendeu policiais, médicos, familiares e amigos. Era solícita com o namorado, oferecia todo tipo de gentilezas, mas Renato parecia em estado de transe, algo comum para quem sofreu tal violência.

Recolhidos em casa, nada parecia acontecer. Renato não emitia uma palavra sobre o ocorrido e limitava-se a diálogos curtos e pragmáticos; Ana sentia-se angustiada, não sabia como lidar com a situação: deveria perguntar sobre? Sugerir ajuda? O que fazer? Os dias tornaram-se longos demais.

O que mais perturbava Ana era saber se ele tentava sufocar as memórias e em que grau tinha êxito ou se fazia justamente o contrário e ficava rememorando detalhadamente tudo o que aconteceu. É interessante notar que algo reavivado em nosso inconsciente mais de uma vez não nos é apresentando da mesma maneira. Extraia aleatoriamente uma lembrança e após alguns minutos pense na mesma lembrança e você verá que algo diferente se projetará em sua cabeça. Assim como ninguém é capaz de entrar duas vezes no mesmo rio, nós mesmos não somos capazes de entrar duas vezes em uma mesma memória.

Renato olhava para Ana e não sabia dizer se ainda a amava. Na verdade, tinha a estranha sensação de detestá-la. Culpa alguma poderia ser atribuída a ela; a escolha, deliberada e firme, foi dele. Só que pensamento nenhum se equilibra no fio do justo e racional. Renato estava quebrado. Não tinha nenhum remorso ou sofrimento no que tange a sua masculinidade, deixando que o machismo social fizesse seus julgamentos. O que o intrigava era o porquê de ela não abrir a boca após ele ter se oferecido.
O silêncio de Ana o perturbou.

Em poucas semanas, o convívio entre os dois tornou-se um martírio. Ana alegava que Renato precisava de ajuda de um especialista, alguém que pudesse o ajudar a enfrentar o problema. Muito provavelmente Freud teria imenso prazer em atendê-lo. Estava lúcido, mas em uma das raras vezes em que conversou com Ana sobre o ocorrido relatou coisas estranhas como uma luz distante e uma faca no chão e deixou de narrar partes centrais da história. A de se levar em conta que o nosso cérebro possui mecanismos de defesa e pode alterar memórias implícitas. Você já se perguntou o motivo de não lembramos de nada enquanto somos bebês ou de esquecermos muitas coisas depois de certas idades? Tudo em nossa cabeça é um enigma, um mistério.

Tentavam retomar a vida. Visivelmente falhavam e, para Ana, o fato de não falarem sobre o episódio era o motivo para o agravamento da situação. Não aguentando mais, resolveu confrontá-lo:

– Renato, amor, não sei como posso ajudar. Veja, tudo o que passou, é um sofrimento imensurável. Algo precisa ser feito, precisamos falar sobre…

Seu olhar foi tão rígido que Ana não conseguiu continuar a frase.

– Ana, todos nós passamos por certos acontecimentos, coisas que jamais podemos esquecer, ainda que queiramos. Me diga uma coisa: por que aquele silêncio?

Não entendeu a pergunta.

– Silêncio?

– Ana, você não deu um grito, não disse uma palavra, não protestou, não pediu que me deixassem em paz, nada, ficou no mais absoluto e desgraçado silêncio.

Ela sentiu um choque. Havia imaginado essa conversa com Renato, as várias possiblidades de questionamentos ou acusações que ele faria: “A culpa foi sua quando pediu que eu descesse do carro” ou “você não deveria ter deixado eu ir em seu lugar”.  Tudo, menos essa acusação. Ana tentou se lembrar do episódio. Ficou espantada ao perceber que não tinha memória exata do momento da violência. Não tinha a menor ideia se havia fechado os olhos, se virou o rosto para outra direção ou desmaiou.

Permaneceu em silêncio. Não conseguia literalmente exprimir uma palavra. Como será que funciona a nossa mente? Tantos dias questionando sobre Renato, em como ele estaria lidando com as memórias e ela própria tinha um hiato em suas lembranças. O quanto realmente conhecemos nossos neurônios?

Em uma madrugada Renato teve um pesadelo no qual revivia o dia fatídico. Acordou após um clarão. Encaminhou-se para a cozinha, cansado, transpirando memórias sofridas. Sentiu uma dor aguda nos pulsos. Abriu a torneira e deixou escorrer água a fim de aplacar a dor. O que os machucava eram lembranças dolorosas. Pegou uma faca e passou em um deles como se quisesse retira-lo e assim parar de sofrer. Viu uma luz distante. Cortou o outro pulso, agachou-se e deixou a faca cair no chão.

Ana ouviu o barulho. Queria gritar, mas seu corpo não atendia ao pedido. Olhou Renato caído com o peito no chão. Vieram lembrança do dia do rapto. Atordoada, foi pegar o celular. Renato encarava Ana e continuava a não ouvir uma palavra. Os homens se aproximavam dela. Renato se contorceu, gritou e pediu que a deixassem em paz. Ao que ouviu como resposta:

– Deixamos ela em paz…

Viu a faca no chão. A luz já não estava tão distante. Ana chegou perto, precisava acudi-lo, precisava fazer algo e nem teve tempo de desviar da arma que penetrou o seu peito. Renato teve forças para dar um último beijo em Ana. Deitou ao seu lado, abraçou-a e ficaram em silêncio, juntos, para toda eternidade.

Photo credit: Allan Dcosta on Visualhunt.com / CC BY

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