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Uma Vida Pela Filha | Conto

Ficção | Leonardo Cássio | Slider 03/08/18 - 07h Leonardo Cassio

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Dezenas de guarda-chuvas pretos perfilados amorteciam as gotas finas da gélida garoa que caía em São Paulo. Os repórteres espremiam-se com tamanha ferocidade para obter uma foto ou depoimento, que quem estivesse alheio aos fatos imaginaria que sairia dali do fórum uma celebridade ou uma figura política importante.

Notícias sobre tragédias não fluem como águas de nascente de rio e sim como uma estrondosa pororoca. A sentença mal havia sido anunciada e já estampava o noticiário de toda a imprensa nacional, que durante semanas debateu com o sensacionalismo costumeiro o assunto, e que agora apresentava o desfecho tão clamado pela opinião pública.

Não foram fáceis as últimas 6 semanas de Lúcia. Desde o ocorrido, esteve poucas e rápidas vezes com Ingrid, sua filha. Estava extenuada do jogo que faziam os advogados, que bolavam estratégias, mimetizavam o assunto para acalmá-la e embrenhavam-se por este ou aquele caminho. Tudo pesava. Queria paz, mesmo sabendo que sua vontade não passava de um devaneio, uma quimera.

Veio para São Paulo com ajuda de uma tia. Aguentou as agressões do ex-marido até o momento em que descobriu estar grávida e resolveu fugir. Os pais já haviam morrido, os dois irmãos evadiram-se para outras cidades longínquas e queria distância do abusador com quem um dia trocou juramentos. Não nutria sentimentos ruins por ele, apenas um asco que somente a distância é capaz de aplacar.

Não é fácil viver na periferia, ainda mais para uma mãe solteira. Para Lúcia, porém, não havia lugar melhor para se estar. Educou Ingrid, construiu um comércio que lhe garantia o sustento e tinha o respeito dos moradores da região. Quando chovia, tinha a estranha atitude de se postar ereta em um espaço descoberto, fechar os olhos e apontar o nariz para o céu e ficar assim, parada, molhando-se por alguns minutos. Tinha uma relação sinestésica com a chuva, com a água tocando seu rosto, fazendo lembranças ruins escoarem pelas vielas apertadas do bairro ao som de uma música que não conhecia, mas que sempre se projetava enquanto entrava naquele pequeno momento de transe.

E que amor tem por Ingrid. Desdobrou-se para garantir que a filha tivesse o necessário para ter uma vida digna, ainda que convivesse diariamente com a pobreza, uma pobreza esquecida nas bordas de São Paulo. Nunca contou a ela uma história de princesa: contava histórias reais vividas por mulheres da cidade onde nasceu. Ingrid não deveria crescer em uma redoma ficcional, pensava. Falava sobre si de forma disfarçada – não queria falar sobre o pai de Ingrid, ainda mais porque foram raras as vezes em que a jovem mostrou interesse em saber algo – e gostava de conversar sobre eventos de sua infância, para alertar a filha sobre as agruras da vida. A dureza da região, as pesadas e não raras surras que tomava dos pais e, principalmente, as bizarrices que o avô envolvia os irmãos e ela. O que mais a marcara foi uma briga de galos promovida pelo velho, que estimulou a rinha até que um dos animais fosse morto, sendo que, mesmo derrotado e moribundo, o perdedor continuava recebendo esporadas e bicadas na cabeça, de modo acabou desfigurado.

Após a escola, Ingrid se dirigia ao comércio, onde passava a tarde ajudando a mãe com todo tipo de tarefa. Certo dia, foi abordada por um rapaz que perguntou se o estabelecimento pertencia a Lúcia, ao que prontamente teve a confirmação, recebendo o complemento de que se tratava de sua mãe.

Dias depois, reaparece o rapaz, que pergunta por Lúcia, se apresentando a ela como um primo de seu ex-marido, lhe vomitando impropérios e ameaças. Com toda a serenidade, pediu ao rapaz que voltasse pela mesma que havia entrado e sumisse.

– Eu sei quem é sua filha. Quando eu voltar aqui, e eu vou voltar, será para pegar ela e não você.
Lúcia encerrou o expediente mais cedo. Ficou pensando em como o passado nos persegue e nos alcança quando julgamos já tê-lo vencido. Teve uma noite ruim. Tão logo começava a pegar no sono e um sussurro lhe zumbia o ouvido, soprando a ameaça feita pelo primo do ex-marido, sílaba por sílaba, o que a torturou a madrugada inteira.

Pouco mais de um mês, surge o primo. Lúcia, imediatamente ao vê-lo, sente o sussurro em seu ouvido. O homem a xinga e aponta para Ingrid dizendo que iria desgraçar a vida de Lúcia, assim como ela fez com seu primo ao abandoná-lo. Lúcia gritou para Ingrid ir para os fundos da loja e no momento em que o homem se projetou para persegui-la, a tesoura perfurou seu pescoço e ele caiu se contorcendo e suspirando os últimos gemidos.

Não se achava pessoa que dissesse que Lúcia não havia agido em legítima defesa. O morto estava desarmado, sim, mas ameaçara sua filha e era parente de um agressor, conforme relatou a investigada. O clamor social era por uma absolvição sumária, irrefutável, só que a justiça não deve atender ao fervor público. Desde que foi detida preventivamente, a cobertura da impressa criou um imenso mise en scène em torno do caso e Lúcia virou uma protagonista à revelia da própria vontade.

Lúcia pensava em Ingrid. Como estaria a cabeça da filha? A dela estava inquieta. Faria tudo de novo sem pestanejar, só que ela tirou uma vida, uma vida pela filha. As pessoas estavam parabenizando o feito e aquilo não fazia sentido: a violência não deve ser celebrada. Lúcia, que tanto sofreu com agressões, não entendia a euforia.

Ter matado em legítima defesa não exime o fato de se ter matado. Era agnóstica, não sentia remorso religioso. No entanto, acabar com uma vida é um fato que nunca se encerra para o executor. Lúcia sonhava com o primo do ex-marido: ele levanta com a tesoura no pescoço e gritava com ela, lhe vomitando impropério e ameaças. Ela queria correr para fora do estabelecimento e se postar na chuva, quieta, com o rosto apontando para o céu enquanto a chuva o tocava. Não conseguia se mexer e ao invés de começar uma música agradável, vinha o primo ao pé do ouvido e lhe sussurrava pausadamente as palavras “eu sei quem é sua fi-lha. Quan-do eu vol-tar a-qui, e eu vou vol-tar, se-rá pa-ra pe-gar ela e não vo-cê”.

A grande questão de Lúcia era o desinteresse pelo assassinado. Teve que matar. Mas quem ela matou? Junto do ameaçador havia uma história e qual seria ela? Legítima defesa não é um ato de vingança. O ataque de Lúcia foi instintivo: precisava proteger Ingrid. Poderia ter tido outra atitude? Pouca importa. Arrependimentos não reescrevem o passado, ainda que sirvam como uma bússola para o futuro.

Lúcia tinha plena consciência de que deveria ser solta. Entendia a complexidade da justiça, ainda mais quando a personagem central é uma mãe solteira de periferia. Os advogados e pessoas próximas enchiam a boca para falar que o caso era uma clara legítima defesa e que não passava de um absurdo a detenção provisória dela. Falavam termos técnicos, descreviam artigos do código penal e a municiavam de informações que não se fixavam em sua mente. Em seu íntimo – e sem dividir o pensamento – ela ficou focada na ideia de que era necessário o recolhimento momentâneo. Ela matou, era preciso. Sentia um incômodo, uma tristeza que a situação causava. Não queria (e não devia) ir para a cadeia e se tornar mais um dígito de estimativa, esquecida na penitenciária como tantas outras mulheres estão. Não queria ser lembrada como “a mulher que matou em nome da filha”. Queria esquecer aquilo, mesmo sabendo que sua vontade não passava de um devaneio.

Começou a ter um sonho diferente: pessoas em prédios disformes, nas janelas, apontado o dedo para ela e gritando assassina enquanto ela bicava a cabeça do primo do ex-marido, até desfigura-lo. Acordava suada, suspirando, e o sentimento de autocondenação cada vez mais tomava conta de seu corpo. Precisava da chuva. Relatou o sonho à tia. Recebeu o discurso padrão, de que era preciso fazer o que foi feito. Lúcia precisava ouvir das pessoas algo que ajudasse minimizar sua dor, pois havia muita, e não o mantra do “foi preciso”. Demonstravam um sentimento, uma vontade espartana em destroçar ainda mais o homem morto, uma raiva que Lúcia não tinha. Legítima defesa não é uma vendeta e as pessoas pareciam usar o primo do ex-marido como alvo de um ódio que elas mesmas não saberiam apontar de onde vem.

Chegou o dia do conselho dos 7 deliberar sobre Lúcia. Chovia. Lúcia não estava concentrada no julgamento. Pensava no passado, no homem morto e em quanto queria naquele momento abraçar a filha. Só percebeu que a sentença havia sido anunciada após Ingrid, a tia e amigos pularem em cima dela, o que fez com que o juiz solicitasse ordem. Não foi absolvida por legítima defesa e sim por inexigibilidade de conduta diversa.

Estava solta, mas não livre. Ingrid chorava de alegria, Lúcia de tristeza. As pessoas a aplaudiam pelos corredores, a cumprimentavam e tiravam fotos com celulares, os repórteres saltavam em cima dela na saída do fórum e tudo aquilo lhe deu asco, o mesmo que sentia do ex-marido, e teve vontade de fugir como da outra vez. A polícia isolou um corredor para que Lúcia saísse com Ingrid e demais acompanhantes. Ela recusou o guarda-chuva e pediu que Ingrid ficasse uns minutos com ela na chuva, de mãos dadas, com os olhos fechados e o rosto apontando para cima. A música projetou-se com a imagem do galo desfigurando o outro e, enquanto a água a acalmava, pode concluir que ela, Lúcia, havia se transformando no animal que jamais conseguira esquecer.

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