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Ainda Somos Os Mesmos E Vivemos Achando Que Somos Muito Diferentes

Comportamento | Thais Polimeni 22/12/17 - 08h Thais Polimeni

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Tem algumas lições de etiqueta que me incomodam um pouco e me fazem questionar como nunca ninguém mudou isso até hoje. Talvez o que eu diga agora seja encarado como uma rebeldia sem causa, um assunto desnecessário no meio-de-tanta-coisa-mais-importante-pra-se-preocupar, mas eu realmente considero isso um perigo na educação universal (ao lado das criações de expectativas): a “regra” do “Respeite os mais velhos”.

Não comparem esse meu questionamento com o injustificável “Não sou feminista nem machista. Sou humanista”, apesar de ambos supostamente seguirem a lógica racional do “Não vamos segregar”. Primeiro porque ser humanista não significa ser a favor do ser humano. Segundo porque feminismo não é o contrário de machismo e terceiro porque a desculpa da segregação sempre é dada por quem detém o poder. E respeito nada tem a ver com poder.

Ultimamente tem sido muito recorrente que pessoas da minha geração reclamem da geração mais nova, especialmente sobre trabalho e relacionamentos românticos. Cada vez que alguém reclama da nova geração, uma fada morre eu me sinto no meio do bingo reproduzindo a frase “Na minha época não era assim…“. Não é óbvia a repetição de padrões? Esses dias, vi o documentário “Quando Somos Quem Queremos Ser?” e a entrevistada Lala Deheinzelin comentou que somos educados para ver o passado como algo bom e o futuro como algo a ser temido, mas que a verdade é que o momento presente é sempre melhor do que o passado. Ou seja, essa mania de falar mal do presente e do futuro é fruto da mídia, da educação formal e das relações interpessoais.

Eu vejo meus amigos, que antes reclamavam dos chefes, agora reclamando dessa nova geração (sem deixar de continuar reclamando dos chefes) e me sinto numa batalha que eu ainda não descobri quando começou, me pegando em pensamentos como: “Por que ensinamos que devemos respeitar os mais velhos e nunca mencionamos que devemos respeitar os mais jovens? O respeito é medido pela idade? Como exigimos que os mais novos nos respeitem se desdenhamos das opiniões deles só por serem diferentes das nossas?“.

Estava conversando com uma amiga sobre relacionamentos no geral e ela comentou que existe uma corrente filosófica que acredita que “quando o poder entra, o afeto sai”, em outras palavras: poder nada tem a ver com respeito. Segundo o psicólogo Alfred Adler, o poder está relacionado ao desejo do indivíduo (ele brigou com Freud, pois discordava que o ser humano era guiado pela sexualidade), portanto, é algo privado e pessoal. Encontrar-se em altos níveis hierárquicos, ter nascido anos antes ou ter passado por um número maior de experiências de vida não vai garantir que alguém seja respeitado.

Desde o final da minha adolescência, que coincidiu com minha entrada no mercado de trabalho, tive a sorte de ter tido contato com pessoas mais velhas que levavam os mais jovens a sério. E essa foi a melhor das surpresas: ser levada a sério por quem tem mais experiência, mais conhecimento e supostamente não me devia nenhum respeito. Conheci pessoas admiráveis – tanto no ambiente profissional quanto pessoal – que deixavam a vida mais leve não se levando a sério e ao mesmo tempo construíam relações genuínas a partir do respeito a quem quer que fosse. É um aprendizado mútuo.

O certo e o errado às vezes não duram nem uma geração, então pode ser que nem estejamos certos sobre nada do que acreditamos cegamente. Não é porque eu nasci alguns anos antes que eu sei mais sobre tudo e todos. Não é porque alguém sabe menos do que eu que não deva ser respeitado. Respeito não se aprende em manuais de etiqueta nem vem da exigência ou da obrigação, mas da empatia e reciprocidade. Por um mundo com mais respeito e menos etiqueta (até porque etiqueta é pra colocar no rótulo e todos sabemos que rotular nunca é saudável. Mas isso é tema pra outro dia!).


Photo by spapax on Visualhunt.com / CC BY-NC

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Thais Polimeni

Thais Polimeni

Thais Polimeni é editora e uma das fundadoras do blog Cult Cultura e, ao lado de Leonardo Cassio e Daniel Ávila, é sócia-diretora da Carbono 60 - Economia Criativa. Publicitária, jornalista, paulistana, tiete e geminiana, Thais é viciada em teatro, cappuccino e wi-fi. Dizem que é descendente direta de Buda, mas na TPM, nem ela se aguenta. É colunista do Jornalirismo e tem seu alter-ego publicado aqui: facebook.com/thaisPOULAINmeni

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