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Desde Quando A Violência Deixou De Chocar?

Comportamento | Thais Polimeni 24/05/17 - 10h Thais Polimeni

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Entre todas as banalizações que existem, a que mais que incomoda é a banalização da violência. Muitos reclamam sobre a banalização do amor, dizem que “Eu Te Amo” não é “Bom Dia”, mas eu prefiro ouvir um Eu-Te-Amo-Bom-Dia a presenciar quem eu convivo aplaudindo a violência contra quem não pode se defender.

Eu sempre morei no centro de São Paulo. Desde criança, via mendigos nas ruas e muitos dormindo em frente de casa. Infelizmente, não me choco ao ver pessoas em situação de rua – e não me orgulho disso. Fico triste, porém, não surpresa. O que me choca é saber que pessoas que se intitulam “de bem” acham normal um policial bater e quebrar o braço de um morador de rua porque ele estava em frente a uma propriedade privada: “Ah, mas o que você faria se tivesse um mendigo dormindo em frente à sua casa?”…

Recentemente, foi realizada uma ação no centro de São Paulo, na região da Luz/ Campos Elíseos, “carinhosamente” apelidada de Cracolândia. Nas imagens divulgadas pela mídia alternativa, o que salta aos olhos são as dezenas de tiros assustadores – provavelmente de bala de borracha – a alvos inexistentes ou indefesos. Assisti ao vídeo e só conseguia me perguntar: “Pra quê?”, “Pra que esses tiros desnecessários?”, “Pra que a intimidação à ex-moradora do local?”, “Pra que tanto grito de ordem?”.

Ter conhecimento do ocorrido, me causou uma profunda angústia, mais angústia do que quando roubaram meu celular no ponto de ônibus em frente ao Parque da Água Branca. Senti medo, mais medo do que quando roubaram meu outro celular na Av. Higienópolis. Me vi insegura, mais insegura do que quando roubaram, sim, outro celular, na região da Sé. Esses sentimentos foram potencializados dessa vez por eu ver que as imagens não retratavam a ação de dependentes químicos ou pessoas em situações de vulnerabilidade: aquela truculência mostrada no vídeo foi aprovada pelas autoridades máximas da cidade em quem eu moro, em um bairro que eu tantas vezes frequentei na infância, na adolescência, na época da faculdade, onde eu fiz um dos meus primeiros estágios.

Se era uma brutalidade necessária, se vai acabar com o tráfico, se vai contribuir para a revitalização da região central, se vai ajudar dependentes químicos a viver uma vida mais humana? Ninguém de nós tem capacidade de responder. Podemos, no máximo, criar hipóteses a partir das nossas plenas convicções*. Mas ver pessoas que eu conheço não se chocando com aquelas imagens, me preocupa mais do que as respostas para os “Pra quê” do início do texto. Não vamos banalizar a violência, tampouco justificar o injustificável.

*Leia aqui a crônica “O Inferno São Nossas Plenas Convicções”

Photo credit: jadawin42 via VisualHunt / CC BY-SA

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Thais Polimeni

Thais Polimeni

Thais Polimeni é editora e uma das fundadoras do blog Cult Cultura e, ao lado de Leonardo Cassio e Daniel Ávila, é sócia-diretora da Carbono 60 - Economia Criativa. Publicitária, jornalista, paulistana, tiete e geminiana, Thais é viciada em teatro, cappuccino e wi-fi. Dizem que é descendente direta de Buda, mas na TPM, nem ela se aguenta. É colunista do Jornalirismo e tem seu alter-ego publicado aqui: facebook.com/thaisPOULAINmeni

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