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Efeito Colateral | Crônica

Comportamento | Thais Polimeni 15/12/17 - 09h Thais Polimeni

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Pode ser durante um filme, uma leitura de um livro, ao ouvir uma música ou até mesmo uma conversa de desconhecidos na mesa ao lado, em algum momento vai bater aquele sentimento de culpa de não ter feito o suficiente, de ter ido além do permitido, de não ter medido as palavras, de não ter falado o que sentia, de ter deixado passar pra falar quando fosse o momento certo, mas cujo momento nunca chegaria.

Grande parte das pessoas da minha bolha – e olha que é uma senhora bolha muito bem diversificada, com as mais diferentes idades, classes sociais, religiões e estados brasileiros (fronteiras internacionais ainda não foram ultrapassadas por ela) – foi criada na culpa católica, e uma das principais metas da vida – perdendo só pra busca do equilíbrio, talvez – é se afastar dessa culpa. Com o passar dos anos, uma gravidez não planejada é menos temerosa do que a culpa materna; a solteirice é mais aceita do que o sentimento de culpa do término de um relacionamento; a falta de reconhecimento no trabalho torna-se irrelevante perto da culpa da demissão; a diminuição da quantidade de novos amigos é mais uma vitória do que uma derrota, se comparada à culpa de amizades mal acabadas; ser filho único passa a ser uma dádiva quando pensamos na incapacidade de pedir desculpas aos irmãos pelas culpas que carregamos do passado.

Às vezes dá vontade de deixar o orgulho de lado e pedir desculpas, mesmo tendo certeza de que a gente não tem culpa. O problema é que essa certeza não existe nem mesmo pra quem veste a camisa do “A Culpa Não é Minha…”: são esses, aliás, que mal conseguem dormir sem um Rivotril ou meia garrafa de whisky – para os preconceituosos com a tarja preta e ostentadores das drogas socialmente aceitas que acreditam estarem ilesos de supostos efeitos colaterais.

Quem escolhe deitar a cabeça no travesseiro sem a ajuda drogas lícitas ou ilícitas, a madrugada faz companhia com algumas dúvidas: “Quem pede desculpas está dizendo que a culpa não é dele (des-culpa) ou está dizendo que a culpa é dele e é para que o outro o tire dessa incômoda situação?“. Se fazemos esse pedido, estaremos, então, jogando para o outro a responsabilidade de nos afastar daquela culpa católica já enraizada no nosso inconsciente? Estaremos transferindo a sua ligação para o setor responsável a culpa que sentimos para o outro? E se formos nós que tivermos que desculpar alguém, seremos, então, culpados por ele se sentir culpado?

É um círculo vicioso que só termina quando vemos que a culpa está dentro da gente e nada tem a ver com o pedido de desculpas. A culpa existe, mas ela não precisa ser minha nem sua. Ela existe para nos lembrar da lei da física de que toda ação tem uma reação e, frente a uma reação inesperada, surge a culpa como um efeito colateral das nossas ações, mas cujo antídoto é pessoal e intransferível.

Pedir desculpas pra alguém que não ficou chateado com você é tão eficiente quanto dizer eu te amo no lugar de bom dia: não faz mal a ninguém, um dia você acerta e é muito melhor que o extremo oposto… Mas na maioria das vezes é mais um exercício pessoal do que uma atitude altruísta. Agora, observar o outro, perceber que você magoou – muitas vezes sem querer – e pedir desculpas, genuinamente, pode economizar algumas horas de terapia, algumas reencarnações, ou pelo menos render um sorriso e uma boa noite de sono – sem efeitos colaterais.


Essa crônica foi inspirada no filme “Requisitos para ser uma pessoa normal”. Talvez você ache que não tem nada a ver com o filme, e talvez não tenha mesmo. Vai ver foi o efeito colateral.

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Thais Polimeni

Thais Polimeni

Thais Polimeni é editora e uma das fundadoras do blog Cult Cultura e, ao lado de Leonardo Cassio e Daniel Ávila, é sócia-diretora da Carbono 60 - Economia Criativa. Publicitária, jornalista, paulistana, tiete e geminiana, Thais é viciada em teatro, cappuccino e wi-fi. Dizem que é descendente direta de Buda, mas na TPM, nem ela se aguenta. É colunista do Jornalirismo e tem seu alter-ego publicado aqui: facebook.com/thaisPOULAINmeni

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