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Sai, Mancha!

Comportamento | Thais Polimeni 16/03/18 - 12h Thais Polimeni

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Entre as diversas homenagens feitas a Marielle Franco, uma me tocou em especial: a da atriz Vera Holtz. Eu não tinha o mínimo contato com as ações e propostas da vereadora, mas desde o final da noite de 14 de março, lamento não tê-la tido como referência até então. Vídeos, entrevistas, reportagens e depoimentos sobre diferentes aspectos da vida de Marielle chegaram até mim (obrigada, bolha!) e me fizeram parar essa vida-frenética-bullet-journal pra prestar atenção nisso-tudo-que-tá-acontecendo-meu-deus-do-céu. Foi uma pausa breve. Não deu tempo nem de respirar: “Inspira…” Quase não termino a palavra e já fico sem ar. Estamos sendo sufocados e não percebemos.

A arte, cumprindo seu papel, me permitiu uma inspiração mais prolongada. Quando o vídeo da Vera Holtz passou pela minha timeline, comecei a refletir melhor sobre os últimos acontecimentos. O vídeo não tem som. É apenas a atriz e suas mãos, que gradualmente são manchadas de vermelho. Vermelho sangue. Esses poucos segundos me lembraram uma cena da peça “Macbeth”, do Shakespeare, quando Lady Macbeth entra em um delírio de culpa e vê manchas de sangue em suas mãos. Em sua crise, Lady Macbeth tenta tirar as manchas de sangue. Em comum com a esposa de Macbeth, o Brasil tem as mãos sujas de sangue, também.

Sujamos nossas mãos de sangue quando evitamos conversar sobre política pra não perder uma amizade; quando escolhemos não corrigir o comentário preconceituoso pra não criar climão; quando ensinamos aos nossos filhos que “política, religião e futebol não se discutem”; quando decidimos não ir a manifestações (e aqui nem me refiro às pessoas que definem os manifestantes como “quem não tem nada pra fazer”); quando não nos chocamos com a violência sobre os oprimidos; quando lamentamos a morte de um gênio britânico que brilhantemente desvendou o universo, mas preferimos ignorar a morte de quem tirava nossa venda para a realidade do Brasil; quando aceitamos a paralisação de uma classe que reivindica a manutenção da desigualdade social; quando defendemos só nossos iguais; quando não defendemos nem nossos iguais; quando não percebemos que temos que nos defender diariamente para sobreviver.

Sai, mancha“, dizia Lady Macbeth, na Escócia, pra tentar limpar sua consciência. Em nosso país, temos a expressão “Eu lavo minhas mãos…” e seguimos em frente, não de consciência limpa, mas sem consciência. Sem a consciência de que estávamos seguindo com as mãos sujas de sangue. Agora, resta torcer para que não seja tarde demais e consigamos eliminar as manchas que carregamos desde as margens plácidas do Ipiranga.

Veja o vídeo da Vera Holtz aqui.

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