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O Inferno São Nossas Plenas Convicções

Comportamento | Thais Polimeni 27/04/17 - 10h Thais Polimeni

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A: “A greve geral de sexta-feira, contra a reforma trabalhista, é organizada pelos sindicatos e apoiada por gente que quer emendar o feriado. Só vai servir pra prejudicar o trabalhador de bem. Eu vou trabalhar. Ninguém paga minhas contas. Petralhas!”.

B: “Esse pessoal que é contra a greve geral é totalmente alienado. São os mesmos que foram manipulados pela mídia nas manifestações contra a corrupção organizadas pelos grupos patrocinados por partidos de direta. Coxinhas!”.

É mais ou menos assim que a gente tem vivido de uns 4 anos pra cá. A greve geral dessa sexta-feira, 28 de abril, nem chegou e já vem causando polêmica nos veículos de comunicação, nas redes sociais e nos relacionamentos. “Polêmica”, aliás, é o que mais tem sido produzido pelos debates políticos. Quem não conhece alguém que perdeu uma amizade por conta de discussões políticas? Não fomos educados para falar de política e muitos consideram opiniões diferentes como um ataque pessoal.

As falas que eu coloquei no início do texto foram extraídas de conversas informais que escutei ou li no dia-a-dia. Ambos os lados têm plenas convicções de suas teorias e têm como comprovar suas opiniões. Porém, há uma linha tênue entre uma conversa saudável e uma discussão (quase) sangrenta. Essa linha tem nome: “plenas convicções”. Para uma boa conversa, é necessário, antes, se despir delas. As plenas convicções cegam, ensurdecem, eliminam a empatia e conduzem a um egocentrismo que acaba por destruir as relações interpessoais. As plenas convicções nos fazem ouvir só a nossa própria voz e ver só a nossa própria realidade. Na presença delas, a opinião do outro se torna irrelevante para a conversa. O inferno não são os outros. O inferno são as nossas plenas convicções.

Porém, mesmo nos colocando nus de nossas convicções, uma boa parte da população evita falar de política para não perder amigos (sábia atitude, diria eu, há alguns anos). Outra parte da população fala sobre política, mas naquela conversa binária de ofensa pessoal. E essas duas partes se encontram em um ponto crucial: o ódio aos políticos. Todos odeiam todo e qualquer político. Prova disso é o atual prefeito de São Paulo, cuja principal qualidade, segundo seus eleitores entrevistados, era o fato de não ser político. A filósofa Marcia Tiburi, em um de seus livros, escreve que “Não há maneira melhor de destruir a política do que fazendo uso eficiente do ódio”. Manter a população afastada da política é fundamental para o benefício dos que já estão no poder.

É esse ódio à política que estimula a polarização e se retroalimenta dela. Não são as opiniões contrárias que impedem o diálogo; é esse ódio, aliado às já conhecidas plenas convicções. É o ódio interno de um país desestabilizado que permite que sejam eleitos sempre os mesmos políticos, não a justificativa preguiçosa e padronizada de que “o povo não sabe votar”.

Conversar sobre política não deve ser binário. Não deve ser um contra o outro, mas uma soma de ideias e opiniões para o desenvolvimento do país. Falar de política é fundamental para a manutenção da democracia. A libertação das nossas plenas convicções e a eliminação do ódio nas conversas, redes sociais ou comentários do G1 pode ser um bom começo para mudar esse cenário do qual poucos se orgulham.

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Photo credit: GAURAV KANDAL via VisualHunt.com / CC BY-NC

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Thais Polimeni

Thais Polimeni

Thais Polimeni é editora e uma das fundadoras do blog Cult Cultura e, ao lado de Leonardo Cassio e Daniel Ávila, é sócia-diretora da Carbono 60 - Economia Criativa. Publicitária, jornalista, paulistana, tiete e geminiana, Thais é viciada em teatro, cappuccino e wi-fi. Dizem que é descendente direta de Buda, mas na TPM, nem ela se aguenta. É colunista do Jornalirismo e tem seu alter-ego publicado aqui: facebook.com/thaisPOULAINmeni

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