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Perdão

Comportamento | Thais Polimeni 11/05/17 - 10h Thais Polimeni

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Desculpa qualquer coisa“. Meu avô materno sempre se despedia assim quando voltava pra Minas Gerais, depois de ficar um tempo em São Paulo. A frase se repetia quando ele se despedia da gente, quando nós voltávamos para São Paulo, depois de irmos visitá-lo em Minas.

Eu nunca entendi muito bem essa expressão. Em algum lugar, eu sentia que falar “Desculpa qualquer coisa” nas despedidas dava permissão pra qualquer um fazer o que bem entendesse e se eximiria das ofensas causadas. Porém, meu avô não se encaixava nessa descrição. Ele nunca fazia nada pra magoar, respeitava os limites dos outros e sempre queria agradar a todos. Ele se desculpava pelo quê?

Agora em 2017, faz 8 anos que meu avô faleceu, e acho que só hoje entendi essa frase que sempre me faz lembrá-lo. Sem entrar no mérito da culpa católica que todo brasileiro tem a tendência de carregar, e partindo do pressuposto que ninguém faz as coisas por maldade (sei que não vivemos num mar de rosas, mas tendo a acreditar que existam mais lovers do que haters no mundo), a verdade é que estamos, diariamente, sujeitos a magoar alguém. E, muitas vezes, magoamos sem perceber ou sem a intenção de fazê-lo.

Conversamos com o objetivo de compreender e às vezes invadimos intimidades que não nos deram permissão; damos conselhos que acreditamos serem assertivos, mas fazemos com que o outro se sinta impotente; desabafamos para mostrar quem somos e acabamos expondo terceiros que se magoam; nos afastamos pra não brigar e criamos uma nuvem de incertezas que angustiam o outro; mostramos nossos sentimentos pra humanizar a relação, mas desrespeitamos o tempo do outro.

O que vale não é a intenção, como aprendemos desde pequenos. O que valem – e o que ficam – são os sentimentos que surgem a partir da ação. Se esses sentimentos forem a mágoa, a raiva ou a tristeza, como saber que fomos responsáveis por eles, se ninguém os expuser? Como se desculpar por algo que não sabemos que causamos? Se já é difícil pedir desculpas por algo que fizemos, imagina por algo que não temos nem ideia? A sabedoria do meu avô pode ser um bom começo. Um bom começo desse desafio do (auto)perdão, da aceitação e da leveza nas relações. Desculpa qualquer coisa.

Photo via VisualHunt.com

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Thais Polimeni

Thais Polimeni

Thais Polimeni é editora e uma das fundadoras do blog Cult Cultura e, ao lado de Leonardo Cassio e Daniel Ávila, é sócia-diretora da Carbono 60 - Economia Criativa. Publicitária, jornalista, paulistana, tiete e geminiana, Thais é viciada em teatro, cappuccino e wi-fi. Dizem que é descendente direta de Buda, mas na TPM, nem ela se aguenta. É colunista do Jornalirismo e tem seu alter-ego publicado aqui: facebook.com/thaisPOULAINmeni

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